Os Sem Nome – a map of a country without signing

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“ A arte define-se em função de um futuro a construir, está ligada a todas as utopias da transformação” Jacques Rancière

1 – Exposição documental e virtual

Esta exposição é um registo documental de um território, de um horizonte que partilhamos, feito por artistas sem nome, isto é, na sua maior parte ausentes do meio artístico e que por vezes optam por uma pratica marginal de fotografia do real.
Esta pratica não é profissional para todos eles, mas a tradicional classificação de “amadores” também não lhes pertence, pois capturam imagens de grande qualidade e nível técnico, são artistas anónimos.
Partilham as suas imagens via internet, na rede Flickr, e muitas vezes encontram-se a quilómetros de distancia uns dos outros.
Esta exposição vai reunir pela primeira vez os seus trabalhos num lugar físico.
Hoje, quando a arte contemporânea se aproxima cada vez mais do documentário, para se tentar aproximar da única visão possível da realidade, estes fotógrafos, tal como os seus colegas do inicio do século XX, não possuem a aura de artistas, mas são os não actores protagonistas desta exposição.
Quando Abbas Kiarostami ou Manoel de Oliveira filmam os seus não actores obtém uma parcela do real que se transforma em ficção, o mesmo cenário encontramos na inversão do processo, operada por Jia Zhang-Ke, em 24 City ( 2009), onde verdadeiros actores interpretam a narrativa real como não actores.
Nos Sem Nome a transposição para a ficção do real é realizada por artistas anónimos e resulta num retrato de um Portugal em vias de extinção, à semelhança do que se passa no resto do mundo.
Quando a globalização é a nossa realidade, é por vezes difícil reconhecer o que é local, qual a identidade circunscrita a um território concreto e por vezes esse reconhecimento implica um olhar distanciado e a abertura a outras paisagens e culturas.
O projecto recentemente inauguradoTRÁFICO é um lugar de cruzamento e de abertura à pesquisa de novas praticas artísticas, que fazem hoje parte do nosso dia a dia. Uma mostra como “We are all photographer’s now” realizada na Suíça, indica como este fenómeno é revelador do espírito do tempo e é talvez o último passo da revolução da reprodutibilidade de Benjamin: o digital ao alcance de todos. Do telemóvel à web cam, todos nós podemos fazer o filme da nossa vida.
Porém, aqui a escolha dos fotógrafos foi feita com o objectivo de traçar uma cartografia localizada de um território, que é Portugal, feito por imagens que, embora não assinadas, constituem um espólio artístico e documental da contemporaneidade.

2 – Projecto curatorial

“Não é uma coincidência que a palavra “curador” esteja etimologicamente relacionada a “cura”. Comissariar é curar. O processo de comissariar cura a falta de poder da imagem, a sua incapacidade de se apresentar a si mesma. A obra de arte precisa de uma ajuda externa, precisa de uma exposição e de um curador para se tornar visível.(…)
O curador é um artista que abandonou o sacerdócio. É um artista, porque faz tudo o que os artistas fazem. Mas é um artista que perdeu a sua aura, que já não tem poderes mágicos à sua disposição, que deixou de poder atribuir aos objectos a sua aura artística. Deixou de usar objectos em favor da arte, mas pelo contrario abusa deles, torna-os profanos. E é este facto que torna a figura do curador independente tão atractiva e essencial para a arte hoje em dia.”
Boris Groys in Art Power, MIT Press, 2008

O curador tem, neste projecto, o papel de subverter ou re-inicializar a sua própria função, como refere Boris Groys, ao escolher as imagens e fazer a sua própria “montagem” expositiva, com o intuito de expor estas obras de documentário fotográfico com uma leitura artística particular.
A metamorfose dá-se na composição expositiva, mantendo-se o suporte privilegiado destes autores que é a projecção de imagem digital.
A pesquisa curatorial apresenta-se como um dos motores para a evolução da arte contemporânea. Esta permite conceber novas formas de exposição, que nos possibilitam uma distanciação do deserto global, para intervir localmente com a singularidade de novas práticas artísticas.
Três projecções simultâneas no espaço central da galeria, permitirão ao publico entrar nesta nova ficção das imagens reais fotográficas, através de uma montagem em slide-show; os comentários do publico que participar nesta rede, ficarão registados em pequenos cadernos de bordo da exposição.
Fotografias que passam da câmara para o ecrã, a imagem numérica que por excelência rouba o espírito índio do filme em película argêntica e capta a dessincronizada vida dos portugueses.
Numa pratica continuada, estes fotógrafos procuram paisagens de um século que por vezes parece não ter marcado o nosso pais, (como noutros que viveram as duas Grandes Guerras) ou que deixou apenas as marcas destrutivas de uma globalização sem regras de conduta, a nível arquitectónico e industrial. O grupo de fotógrafos aqui apresentado capta esta dualidade entre lugares de abandono, cidades e rostos familiares.

3 – Horizontes e pessoas

“ … Interessa-me tentar olhar para as coisas um pouco … um pouco cientificamente, tentar encontrar em todos esses momentos de multidão o ritmo, encontrar o inicio da ficção. porque … porque a cidade, é a ficção … o verde, o céu, a floresta são … são a poesia, a àgua é a poesia, a cidade é a ficção, e é a necessidade de ficção, e deve ser bela por isso, e aqueles que moram nela são … são muitas vezes magníficos e patéticos, mesmo num, pais muito rico como … como é aquele. …”

excerto de Lettre à Freddy Buache de Jean-Luc Godard, in Grandeur et Faiblesse de la Ville de Lausanne.

O estado de um pais retrata-se na paisagem e nas pessoas que o habitam.
Ao tentar capturar esses espaços na relação com quem os habita, temos uma montagem parcial do tempo presente.
E dessa montagem de fotografias de múltiplos autores nascem pequenas historias ou ficções, se quisermos, e é essa a realidade das cidades em que vivemos.
Estes fotógrafos captam a espacialidade arquitectural portuguesa e os traços que lhe imprimiu o século XX. O abandono industrial dos últimos decénios, após a entrada na Comunidade Europeia.
Hoje por todo o mundo as cidades perdem as suas marcas do tempo. Ficam congeladas num arquitectura histórica turística e vazia da comunidade contemporânea.
As doutrinas do historiador Viollet-le-Duc que consistiam em “limpar” as marcas subjacentes ao edifício primitivo, para o levarem de novo à sua “pureza inicial” não cessam de se repetir, mas hoje sem a filantropia do historiador que assinava as suas obras. Nas nossas cidades restam os labels das marcas de um mundo de franchising comercial e de logótipos: estes são as habituais referências e cada vez mais as mesmas em qualquer cidade: “ para chegares ao cinema, viras à direita ao lado do Barclay’s e desces até à Zara”, isto pode ser dito em Paris, Lisboa ou Nova York.
A moda é um dos únicos signos do tempo que passa.
Alguns destes fotógrafos tem consciência desse fenómeno e retratam-no em imagens que lhe fazem eco.
Paralelamente fazem diários íntimos dos rostos e vivencias que cruzam e que, por vezes, fazem eco aos retratos a preto e branco do inicio do século XX.
Existe talvez um sentimento particular que os distingue e que é característico de um grupo de pessoas que vive desde à séculos numa falésia.
Parece quase ridículo citar que de Pessoa a Saramago, quantos foram os escritores que perpetuaram esta particular ressonância emocional, mas que é ainda hoje uma característica local.

4 – Anónimas assinaturas

Les invendables (1914), foi o titulo de uma exposição de Man Ray. O autor explica : « Porquê ? Porque é o nome que esta à venda. Sem assinatura o quadro não vale nada. Os dois vão juntos … »
Estávamos em 1914, e as vanguardas internacionais faziam o seu jogo de troca de assinaturas na arte, Duchamp assina a La Fontaine como R. Mutt.
Este jogo entre um objecto sem vida artística, anónimo, e a obra de arte é característico de uma época.
Desde à vários anos que a arte esta ligada à vida, à sua linguagem quotidiana de gestos e objectos.
“A assinatura pertence aos signos de identidade. De um ponto de vista geral, estes signos indicam as características de um individuo de forma a que o possamos reconhecer. Ora, segundo as épocas, os lugares, as culturas, estas noções de características, de identidade, e mesmo de individuo variam. Tal como a assinatura, que revela uma certa concepção social da identidade do individuo.”como afirma Béatrice Fraenkel dans La signature, genèse d’un signe .
Mesmo se hoje, como nos diz Giorgio Agambén, as assinaturas se encontram pulverizadas, como se tivessem sido trituradas pelo moinho de chocolate de Duchamp, conservando a sua singularidade para marcar um território – sublinhar uma apropriação. A assinatura hoje é quase um anacronismo.
Nesta exposição os artistas assinam como Eikii, Gushi, Matador, mOrph3u, 13Mujin, Oi!!!!!!!!!; Pesterussa, Stilb ou Un-exposed.

Silvia Guerra, curadora da exposição

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